Fatores críticos e implicações das interseccionalidades na psicoterapia de homens negros gays

Critical Factors and Implications of Intersectionalities in the Psychotherapy of Black Gay Men

Factores Críticos e Implicaciones de las Interseccionalidades en la Psicoterapia de Hombres Negros Gays

Leandro Aparecido Fonseca Missiatto

Escola da Magistratura do Estado de Rondônia (EMERON)

Janine Kieling Monteiro

Universidade do Valeo do Rio dos Sinos (UNISINOS)

Resumo

Introdução: Este estudo investigou a experiência de homens negros gays na psicoterapia, considerando as interseccionalidades racial e sexual, com o objetivo de identificar os fatores críticos que afetam a psicoterapia com essa clientela. Método: Utilizou-se uma abordagem qualitativa, com entrevistas realizadas com quatro homens negros gays em Rondônia. Os dados foram analisados pelo Método Fenomenológico para identificar sentidos e estruturas comuns da experiência. Resultados: Foram identificados quatro fatores críticos para o atendimento dessa clientela: Perspectiva Interseccional Dinâmica (PID); Dissonância Identitária Psicoterapêutica (DIP); Competência Interseccional Psicoterapêutica (CIP); e Insensibilidade Interseccional Psicoterapêutica (IIP). Conclusão: Intervenções psicoterapêuticas atentas a esses fatores críticos podem contribuir para melhorar o atendimento psicológico de homens negros gays. Psicoterapeutas devem estar preparados para abordar as dinâmicas interseccionais das identidades, inclusive aquelas relacionadas às relações de poder associadas às identidades não minorizadas, a fim de promover uma relação psicoterapêutica mais produtiva.

Palavras-chave: fatores críticos na psicoterapia; interseccionalidade; psicoterapia; raça; homossexualidade

Abstract

Introduction: This study investigated the psychotherapy experiences of Black gay men, considering racial and sexual intersectionalities. The aim was to identify critical factors affecting psychotherapy for this population. Methodology: A qualitative approach was used involving interviews with four Black gay men in Rondônia. Data were analyzed using the Phenomenological Method to identify common meanings and experience structures. Results: Four critical factors were identified: Dynamic Intersectional Perspective, Psychotherapeutic Identity Dissonance, Psychotherapeutic Intersectional Competence, and Psychotherapeutic Intersectional Insensitivity. Conclusion: Therapeutic interventions addressing these factors can improve psychological support for Black gay men. Psychotherapists should address intersectional identity dynamics and non-minoritized identity power dynamics for more productive therapeutic relationships.

Keywords: critical factors in psychotherapy; intersectionality; psychotherapy; race; homosexuality

Resumen

Introducción: Este estudio investigó la experiencia de hombres negros gays en la psicoterapia, considerando las interseccionalidades racial y sexual, con el objetivo de identificar los factores críticos que afectan la psicoterapia con este grupo. Metodología: Se utilizó un enfoque cualitativo con entrevistas a cuatro hombres negros gays en Rondônia. Los datos fueron analizados mediante el Método Fenomenológico para identificar sentidos y estructuras comunes de experiencia. Resultados: Los resultados identificaron como factores críticos para la atención de este grupo: Perspectiva Interseccional Dinámica; disonancia identitaria psicoterapéutica; Competencia Interseccional Psicoterapéutica; Insensibilidad Interseccional Psicoterapéutica. Conclusión: las intervenciones psicoterapéuticas atentas a estos factores críticos pueden contribuir a una mejor atención psicológica para hombres negros gays. Los psicoterapeutas deben estar preparados para abordar dinámicas interseccionales de las identidades, incluidas las relacionadas con el poder de las identidades no minoritarias, buscando una relación psicoterapéutica más productiva.

Palabras clave: factores críticos en la psicoterapia; interseccionalidad; psicoterapia; raza;

Palabras clave: factores críticos en la psicoterapia; interseccionalidad; psicoterapia; raza; homosexualidad.

Introdução

Homens negros gays enfrentam racismo e homofobia em razão da raça e da sexualidade, elementos estruturantes das relações sociais (Almeida, 2019; Foucault, 2020). Isoladamente, a discriminação e a violência já provocam prejuízos relevantes (Mbembe, 2017; Teixeira, 2021); quando se interseccionam, porém, intensificam seus impactos sobre pessoas pertencentes a grupos raciais e sexuais minorizados e podem gerar consequências irreversíveis (Collins & Bilge, 2021; Rutter, 2006).

Estudos indicam que o racismo, a homofobia e o heterossexismo causam danos psicológicos significativos, incluindo baixa autoestima, autodepreciação e internalização de preconceitos (Ferguson & Miville, 2017; Silva et al., 2020). Pesquisas interseccionais mostram que grupos com múltiplas identidades minorizadas têm pior saúde mental em comparação com grupos privilegiados (Xavier Hall et al., 2023).

Kelly et al. (2021) descobriram que adultos com identidades raciais ou étnicas e sexuais minorizadas apresentam maior risco de ideação suicida e suicídio em comparação com pessoas heterossexuais brancas não hispânicas. Lett et al. (2020) identificaram que pessoas negras pertencentes a minorias de gênero são mais propensas a relatar sofrimento mental grave e períodos mais longos de mal-estar físico ou mental do que pessoas negras cisgêneras, além de apresentar pior saúde autorrelatada em relação a esse grupo e a pessoas brancas pertencentes a minorias de gênero.

Para Allen (2010), o sofrimento mental decorrente da discriminação pode surgir da intensificação da percepção de pertencimento a comunidades marginalizadas. Isso ocorre porque tal experiência reforça a consciência das posições sociais e das diferenças em relação aos grupos dominantes (Yakushko et al., 2009). A discriminação pode manifestar-se de forma isolada ou simultânea, em razão de aspectos raciais e sexuais (Root, 1990). Em resposta às violências, as pessoas tendem a modificar sua relação com as próprias identidades, comportamento denominado saliência de identidade (Yakushko et al., 2009).

A saliência de identidade é a probabilidade de evocar uma identidade específica em diferentes situações (Stryker, 2000), indicando sua centralidade nas relações sociais (A. Hurtado et al., 2015). Por exemplo, um homem negro gay em um ambiente predominantemente branco e heterossexual, ao enfrentar homofobia, pode priorizar sua identidade sexual. Isso pode resultar em: a) expressão de ativismo LGBTQIAPN+1 (S. Hurtado et al., 2015); b) busca por suporte de pessoas com identidades similares (Zaman & Anis-ul-Haq, 2023); ou c) silenciamento ou concordância com a discriminação (Stryker & Serpe, 1982). Nesses cenários, a identidade racial torna-se secundária, enquanto a sexual ganha centralidade devido ao contexto.

A saliência de identidade pode fortalecer laços comunitários (Han et al., 2023; Madrigal, 2001) ou causar estresse e problemas de saúde mental (De Alwis & Hernwall, 2021). No âmbito da psicologia clínica, pessoas com múltiplas identidades minorizadas desafiam a atuação de psicoterapeutas (Anders & Kivlighan, 2023; Sandil et al., 2015). As especificidades desse atendimento exigem uma abordagem sensível e diferenciada para essa clientela (Sue, 2015), o que demanda profissionais preparados para compreender como as vivências interseccionais de opressão afetam o bem-estar psicológico dessas pessoas (Chang & Berk, 2009). Nesse sentido, destacam-se as práticas interseccionais, que têm apresentado impactos positivos no atendimento de pessoas com múltiplas identidades minorizadas (Anders et al., 2021). A efetividade dessas intervenções exige que psicoterapeutas estejam cientes de que a saliência das identidades de seus clientes pode afetar o modo como as(os) psicólogas(os) conduzem suas intervenções (Wheeler & Richards, 2007).

Pesquisas indicam que as identidades das(os) psicoterapeutas podem afetar positiva ou negativamente as(os) clientes (Duncan et al., 2010), em razão das dinâmicas de poder que as identidades hegemônicas representam no ambiente psicoterapêutico. Por exemplo, um psicólogo branco ocupa uma posição de maior poder simbólico ao atender uma mulher negra, enquanto, no caso de uma psicóloga branca, destaca-se apenas a posição profissional (Watts-Jones, 2010). O inverso também ocorre: um psicólogo negro gay que atende um homem branco heterossexual pode enfrentar resistência e desqualificação, ainda que inconscientes, por parte do cliente (PettyJohn et al., 2020).

Segundo Gouveia e Zanello (2019), mulheres negras acreditam que seriam atendidas com mais empatia por psicólogas negras, devido às vivências raciais compartilhadas. Isso indica que os significados sociais das identidades tradicionalmente associadas a estruturas de exploração afetam negativamente grupos marginalizados na psicoterapia (Addison & Coolhart, 2015). Tal efeito decorre do fato de que a psicoterapia está intimamente associada ao contexto político e cultural no qual se desenvolve (Rutter, 2006). A falta de conhecimento sociocultural e de habilidade interseccional para intervir com clientes pertencentes a grupos raciais e sexuais minorizados potencializa, portanto, as chances de ocorrência de microagressões na psicoterapia (Owen et al., 2014).

Entendem-se por microagressões na psicoterapia os comentários, comportamentos ou atitudes sutis de cunho depreciativo ou ofensivo, praticados por psicoterapeutas e dirigidos a clientes pertencentes a grupos marginalizados (Sue et al., 2007). Também se incluem as invalidações ou manifestações de indiferença por parte das(os) psicoterapeutas quando pessoas com identidades minorizadas expressam demandas ou abordam suas percepções de discriminação (Nadal, 2013).

Owen et al. (2014) mostram que a maioria (53–81%) dos clientes pertencentes a minorias raciais ou étnicas afirma ter experimentado pelo menos uma microagressão por parte de seus psicoterapeutas, como a evitação de tópicos culturalmente relevantes para as(os) clientes ou a adoção de estereótipos generalizados. Indivíduos pertencentes a minorias sexuais também relatam microagressões, como declarações heteronormativas e suposições sobre sua orientação sexual (Spengler et al., 2016). Essas situações geram insegurança e desconforto, desestimulam as(os) clientes a abordar tópicos sensíveis e podem levar ao abandono precoce do acompanhamento (Nadal et al., 2014; Sue, 2015).

Por outro lado, pesquisas apontam que as habilidades essenciais para o estabelecimento de um bom vínculo psicoterapêutico e para o progresso da psicoterapia incluem não julgar, possuir conhecimentos multiculturais e interseccionais e compreender as múltiplas facetas da identidade do cliente (Tavares & Kuratani, 2019; Zamignani et al., 2016). O estudo de Mulvaney-Day et al. (2011), realizado com a população negra estadunidense, indica que um dos elementos mais importantes para o sucesso psicoterapêutico com essa clientela é a escuta atenta, por parte da(o) psicoterapeuta, às necessidades específicas das(os) clientes, pois elas(es) são especialistas em suas próprias vidas.

Para pessoas marginalizadas racial e sexualmente, é altamente significativo que a(o) psicóloga(o) tenha conhecimento aprofundado sobre questões raciais e sexuais e as explore nas sessões (Chang & Berk, 2009; Gouveia & Zanello, 2019). No caso da população negra, essa abordagem é ainda mais importante do que o foco na resolução de problemas, pois favorece o estabelecimento de um forte vínculo psicoterapêutico (Kennedy, 2004).

Com base nos estudos apresentados, podemos afirmar que alguns elementos contribuem para um atendimento psicológico adequado e eficaz, enquanto outros prejudicam a dinâmica psicoterapêutica. Esse conjunto pode ser denominado “fatores críticos da psicoterapia”, tema há muito presente na psicologia clínica.

Esforços de Carl Rogers (1951/2021) para compreender como a(o) psicoterapeuta pode facilitar o desenvolvimento da(o) cliente e estudos sobre os componentes que promovem uma aliança terapêutica eficaz, a exemplo do trabalho de Bordin (1979), ilustram essa preocupação. No entanto, no Brasil, ainda falta uma definição clara e precisa dos fatores críticos na psicoterapia.

Nos Estados Unidos, tem avançado o uso da terminologia critical success factors (CSFs), que se refere aos elementos essenciais para o êxito da psicoterapia como um todo ou de parte dela (Hackbarth & Cata, 2021). A aplicação desse conceito ao campo ainda é incipiente e não consensual, sem uma definição clara, em razão da variedade de expressões semelhantes existentes (Riedl et al., 2024).

Neste artigo, optou-se pelo termo “fatores críticos” em razão de sua abrangência, pois inclui tanto os aspectos que favorecem o sucesso da psicoterapia quanto os elementos que dificultam os processos psicoterapêuticos. Nesse contexto, a expressão abrange os aspectos associados ao atendimento psicológico de homens negros gays (Missiatto & Monteiro, 2024). Assim, ao considerar os fatores críticos nesse atendimento, buscamos identificar os componentes sensíveis que podem afetar, positiva ou negativamente, a eficácia do processo psicoterapêutico.

Diante das questões apresentadas, esta pesquisa teve como objetivo investigar a experiência de homens negros gays na psicoterapia, considerando as interseccionalidades racial e sexual, a fim de identificar os fatores críticos que afetam o atendimento dessa clientela. O estudo integrou a pesquisa de doutorado em Psicologia Clínica realizada pelo autor principal do artigo na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), entre 2021 e 2024.

Metodologia

Esta pesquisa é um estudo exploratório e descritivo, de abordagem qualitativa, que utilizou o Método Fenomenológico de Investigação em Psicologia (MFIP), adaptado por Amadeo Giorgi (2009). Participaram quatro homens negros gays cisgêneros que, em 2023, residiam em Rondônia e haviam concluído mais de cinco sessões de psicoterapia. O recrutamento ocorreu por amostragem em bola de neve (Vinuto, 2014), com os seguintes critérios de inclusão: ser maior de idade, ter realizado ao menos uma sessão psicoterapêutica e se autodeclarar negro e homossexual. A definição do número de participantes baseou-se no critério de saturação teórica, tendo sido observadas constância e repetição das narrativas nas entrevistas (Bauer & Gaskell, 2015), o que provavelmente se deveu à elevada especificidade do grupo decorrente dos requisitos de seleção estabelecidos.

No que se refere à posicionalidade, o pesquisador principal, um homem negro gay residente em Rondônia, manteve um diário reflexivo com anotações realizadas logo após cada entrevista. Esse procedimento permitiu registrar impressões, questionamentos e potenciais vieses, posteriormente discutidos e analisados durante o processo de supervisão acadêmica. Essa prática contribuiu para o manejo adequado da subjetividade do pesquisador e para o aprimoramento da qualidade dos dados coletados.

A transcrição e a análise basearam-se nas fases do MFIP: transcrição das entrevistas, leitura integral dos protocolos, segmentação e codificação em unidades de significado, transformação dessas unidades em linguagem psicológica, síntese de estruturas descritivas, validação e identificação dos sentidos e das estruturas gerais comuns (Giorgi, 2009). A codificação foi realizada pelo pesquisador principal. Eventuais conflitos ou dúvidas interpretativas foram resolvidos por consenso entre o pesquisador e sua orientadora de doutorado, com a participação, quando necessária, de um especialista externo com experiência na área, consultado para assegurar maior rigor metodológico.

A validação dos resultados envolveu múltiplas estratégias para garantir confiabilidade e transparência. Todos os procedimentos do MFIP, incluindo as estruturas gerais identificadas, foram submetidos a dois pesquisadores com experiência na aplicação do método, que atuaram como juízes na verificação do uso adequado da metodologia e da consistência dos achados. Adicionalmente, realizou-se member checking, procedimento no qual os achados foram compartilhados com os entrevistados para obtenção de feedback e validação das interpretações. O material também foi submetido a outros pesquisadores para revisão por pares, o que permitiu considerar diferentes interpretações e fortalecer os achados. Tanto a validação por juízes quanto o member checking são procedimentos previstos no MFIP (Giorgi & Sousa, 2010). O estudo também seguiu os princípios éticos e foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Unisinos, sob o CAAE nº 67423523.3.0000.5344. Como parte da responsabilidade ética, ofereceu-se aos participantes uma devolutiva individual para discutir os resultados alcançados. Esse retorno possibilitou reflexões sobre como a participação de cada entrevistado contribuiu para os achados e para o avanço do conhecimento, no campo da Psicologia Clínica, acerca das experiências de homens negros gays em psicoterapia.

Resultados

Dos quatro entrevistados, três moravam em Porto Velho, capital do estado, e um residia no interior de Rondônia. A idade média era de 28 anos. A maioria possuía ensino superior e pós-graduação, enquanto um participante tinha ensino médio. Todos estavam empregados, com renda média de 1,8 salários mínimos. Dois moravam sozinhos, e dois viviam com famílias compostas por três a seis membros. Todos assumiam publicamente suas identidades racial e sexual e relataram experiências de preconceito, principalmente na igreja, na escola, na família, no trabalho, em espaços de lazer e na internet. Em relação à religião, um era evangélico, um católico, um umbandista e um não seguia nenhuma religião. Quanto às experiências na psicoterapia, os sentidos e as estruturas comuns são apresentados na Tabela 1.

Tabela 1

Síntese das Experiências de Homens Negros Gays na Psicoterapia

Tema

Significado

Exemplo de fala

Saliência da identidade sexual sobre a raça

A percepção da homossexualidade antecede a da negritude: a primeira ocorre ainda na infância, enquanto a consciência racial emerge por volta dos 18 anos.

“Tive certa dificuldade de perceber a mescla de sexualidade e cor da minha pele... percebia as formas diferentes.” (Participante, 27 anos).

“Tive que primeiro entender que eu era gay antes de me entender negro... vivência embranquecida... precisava estar embranquecido para me sentir aceito.” (Participante, 34 anos).

Microagressões na psicoterapia

Experiências de microagressões tanto na vida cotidiana quanto nas sessões de psicoterapia.

“A psicóloga me acompanhava para ver se eu ia deixar de ser gay... não foi uma fase boa de psicoterapia...” (Participante, 28 anos).

“Com o tempo eu evitava temáticas de sexualidade e cor... faltava compreensão por parte dos psicólogos...” (Participante, 34 anos).

Impacto das identidades dos psicólogos na experiência dos clientes

Crença de que psicólogas(os) que não compartilham as mesmas identidades dos clientes – negras(os) e/ou gays – não os compreendem adequadamente.

“Um psicólogo negro gay, acho que nos entende melhor, por compartilhar os mesmos atravessamentos...” (Participante, 24 anos).

“Acho que ela (psicóloga), não entenderia. Ela nunca viveu aquilo (psicóloga branca e heterossexual), não poderia saber do que estava falando.” (Participante, 34 anos).

Integração da identidade

Contextos de violência mais expressiva tornam a identidade sexual inicialmente mais saliente. A identidade negra é construída mediante a participação em grupos sociais negros afirmativos.

“Em relação a minha sexualidade, eu me descobri muito cedo, eu acho... eu era uma criança diferente [...] infelizmente, fui taxado como gay e aí fui entender que aquilo era uma coisa ruim.” (Participante, 27 anos).
“Primeiro descobri a sexualidade [...] depois na universidade descobri a identidade racial... quando encontro pessoas com orgulho de serem pretas.” (Participante, 24 anos).

Relação com o terapeuta

Uma relação bem-sucedida com psicoterapeutas cujas identidades divergem das identidades dos clientes depende da habilidade da(o) psicoterapeuta para compreender e abordar o racismo e a homofobia nas sessões, não julgar, aprofundar demandas interseccionais específicas e contextualizar suas próprias identidades no processo psicoterapêutico.

“No início eu julgava ela por ser mulher branca e heterossexual [...] mas a forma como ela manejou, principalmente referente as questões sexuais, fez eu me sentir muito acolhido.” (Participante, 27 anos).

“Por vezes eu não conseguia falar (do racismo), só chorava, mas eu me sentia acolhido porque ele não me julgava e falava coisas do racismo que (eu) não conseguia [...]” (Participante, 28 anos).

“Ele (psicoterapeuta), falou das dificuldades por não ser um homem negro e gay, e isso faria que ele se empenhasse mais em me compreender [...] eu me senti mais confortável e confiante com a terapia.” (Participante, 28 anos).

Invisibilidade e opressão na psicoterapia

As principais microagressões foram a relativização das demandas afetivas dos clientes e a ausência de aprofundamento de temas sensíveis, como racismo e homofobia, nas sessões. Com o tempo, os clientes se desmotivam a falar sobre suas vivências e seus sentidos raciais e sexuais e abandonam a psicoterapia.

“[...] eu tinha a sensação de falar para a parede... então deixei de falar sobre essas coisas (racismo e homofobia)” (Participante, 34 anos).
“Eu falava, mas percebia ela um pouco distante dentro dessas questões [...] eu perdia o foco e o interesse em continuar.” (Participante, 24 anos).

Discussão

Este estudo investigou a experiência de homens negros gays na psicoterapia, considerando as interseccionalidades racial e sexual, com o objetivo de identificar os fatores críticos que afetam a psicoterapia com essa clientela. Os resultados são discutidos nos tópicos a seguir. Ao final de cada um, os achados são sintetizados em um fator crítico, conceituado com base nas evidências alcançadas.

Perspectiva Interseccional Dinâmica (PID)

A Perspectiva Interseccional Dinâmica (PID) refere-se à habilidade das(os) psicoterapeutas para compreender e abordar a complexidade e a fluidez das identidades interseccionais de homens negros gays no contexto psicoterapêutico (Missiatto & Monteiro, 2024). Esse conceito reconhece que as identidades raciais e sexuais não são estáticas, mas interagem de maneiras diversas, influenciadas por contextos sociais, culturais e individuais de violência, discriminação e afirmação.

Síntese dos Achados

Esse fator crítico decorre do achado de que os homens negros gays reconheceram e integraram suas identidades sexual e racial de maneiras distintas e em momentos diferentes. Nesse caso, a homossexualidade foi identificada desde a infância, enquanto a consciência da negritude emergiu por volta dos 18 anos, evidenciando a saliência da identidade sexual sobre a racial. Os participantes relataram que suas experiências em grupos negros afirmativos foram fundamentais para a construção de uma identidade racial positiva, o que demonstra a importância do apoio comunitário na valorização da negritude e na autoaceitação. Possíveis explicações para esse predomínio podem residir na multiculturalidade e na interseccionalidade das identidades, levando à hipótese de que a homofobia seja culturalmente mais explícita do que o racismo no contexto da pesquisa.

Diálogo com a Literatura

Segundo Bowleg (2013), a intersecção das identidades racial e sexual gera experiências únicas de opressão e resiliência, e uma identidade pode se tornar mais saliente em função das percepções de discriminação. Nadal et al. (2010) observam que, em ambientes mais homofóbicos, a identidade sexual pode se tornar mais pronunciada devido à percepção constante de ameaça. A esse respeito, Abes et al. (2007) afirmam que, em contextos hostis, a centralidade de uma identidade pode funcionar como forma de autopreservação. Desse modo, as identidades são influenciadas pelo tipo e pela intensidade das violências homofóbicas e raciais experimentadas, bem como pelo impacto dessas experiências nas percepções de quem sofre discriminação (Sandil et al., 2015).

No Brasil, o discurso sobre o racismo foi suavizado pelo mito da democracia racial2, enquanto a homofobia se manifestou mais explicitamente (Lacerda et al., 2002; Natividade & Oliveira, 2009; Paz et al., 2020; Schmitt & Branscombe, 2002). Essa distinção afetou as formas de enfrentamento dessas violências. Estudos sobre o desenvolvimento racial infantil demonstram que a discriminação racial afeta a identidade e a autoestima de crianças negras desde idades precoces (Camilo et al., 2020); à medida que as crianças crescem, o preconceito racial é expresso de maneira mais sutil, em situações consideradas justificáveis (França & Monteiro, 2004); e a construção da identidade de crianças negras é fortemente influenciada por fatores sociais e culturais que valorizam a branquitude, levando-as, muitas vezes, a se identificarem com o grupo social que as discrimina racialmente (Moreira-Primo & França, 2023).

Quanto à homofobia, a escassez de estudos sobre suas manifestações na infância limita a compreensão dos efeitos dos fatores sociais relacionados à sexualidade sobre a vivência identitária de homens negros gays e dificulta sua comparação com os efeitos associados à identidade racial. Nesse sentido, esta pesquisa aponta, como hipótese, possíveis diferenças nos mecanismos de defesa psicológica, nas estratégias de enfrentamento e nas variações culturais relacionadas tanto à percepção quanto à expressão das violências, o que exige pesquisas futuras para aprofundar a análise dessa forma de saliência identitária.

Sobre o modo como as identidades são consideradas, os grupos sociais afirmativos, tanto negros quanto LGBTQIAPN+, mostraram-se essenciais para a integração positiva da identidade racial em pessoas com múltiplas identidades minorizadas, evidenciando a importância do apoio comunitário (Addison & Coolhart, 2015; Nascimento, 2018; Sue et al., 2012). Pesquisas revelam que a participação em coletivos negros afirmativos, especialmente no ambiente universitário, é fundamental para a construção de uma identidade racial positiva (Baber, 2012; Clayton, 2020; Harper & Quaye, 2007; Harris & BrckaLorenz, 2017; A. Hurtado et al., 2015; Wijeyesinghe & Jackson, 2001).

Implicações Clínicas

A Perspectiva Interseccional Dinâmica tem implicações clínicas concretas para a(o) psicoterapeuta, como a necessidade de desenvolver competências específicas para abordar a fluidez identitária de homens negros gays. Uma estratégia consiste na elaboração de roteiros para a avaliação interseccional das identidades, considerando suas saliências em diferentes contextos.

Avaliações como essa se mostram proveitosas porque permitem o mapeamento detalhado das experiências discriminatórias, a identificação de recursos de enfrentamento específicos para cada identidade e a compreensão das dinâmicas de visibilidade e invisibilidade identitária utilizadas adaptativamente pelo cliente (Abes et al., 2007; Anders & Kivlighan, 2023; Anders et al., 2021). O roteiro pode incluir itens como: “Em que contextos sua percepção de ser uma pessoa negra se tornou mais evidente ou desafiadora?”; “Como você vivencia a conjunção entre ser negro e gay em diferentes ambientes, como igreja, trabalho e família?”; “Houve momentos em que você sentiu ou sente necessidade de ocultar ou revelar elementos pessoais socialmente atrelados à negritude ou à homossexualidade?”; “Que estratégias você desenvolveu para lidar com cada tipo de discriminação?”

Dissonância Identitária Psicoterapêutica (DIP)

A Dissonância Identitária Psicoterapêutica (DIP) ocorre quando diferenças entre as identidades sociais da(o) psicoterapeuta e do cliente, neste caso, um homem negro gay, influenciam negativamente a dinâmica e a eficácia da psicoterapia (Missiatto & Monteiro, 2024). O conceito reconhece que divergências significativas quanto à raça, ao gênero e à orientação sexual podem criar barreiras à compreensão empática e à construção de uma aliança terapêutica sólida.

Síntese dos Achados

Os participantes relataram acreditar que psicólogas(os) com identidades raciais ou sexuais diferentes das suas talvez não os compreendam adequadamente. Essa percepção gera desconfiança inicial e dificuldades no estabelecimento do vínculo psicoterapêutico.

Diálogo com a Literatura

Conforme Rutter (2006), a psicoterapia está intimamente relacionada ao contexto político e cultural de uma comunidade, sendo influenciada pelas estruturas de poder social. Addison e Coolhart (2015) complementam essa perspectiva ao argumentar que essas estruturas afetam as percepções e os sentidos atribuídos às identidades, fenômeno que também se manifesta na clínica psicológica na relação entre psicoterapeuta e clientes pertencentes a grupos historicamente marginalizados.

Nesse contexto, é possível que as relações raciais e sexuais estabelecidas pelos clientes ao longo da vida se reflitam, na clínica psicológica, em suas crenças sobre as habilidades e competências das(os) psicoterapeutas (Missiatto & Monteiro, 2022; PettyJohn et al., 2020). Addison e Coolhart (2015) observam especificamente que psicoterapeutas não negros e não pertencentes à população LGBTQIAPN+ podem ocupar posições de privilégio que, se não forem abordadas no atendimento, dificultam o estabelecimento de um vínculo satisfatório.

Uma possível explicação para os achados desta pesquisa é que as percepções dos clientes reflitam as dinâmicas sociais das quais fazem parte. Experiências anteriores de incompreensão ou invalidação por profissionais com perfis identitários divergentes podem gerar expectativas negativas sobre a capacidade de compreensão de psicoterapeutas que ocupam outras posições sociais diante de suas experiências interseccionais (Addison & Coolhart, 2015; Gouveia & Zanello, 2019; King, 2022).

Implicações Clínicas

A Dissonância Identitária Psicoterapêutica (DIP) pode ser identificada e manejada por meio de estratégias específicas que reconheçam sua presença e seu impacto. Psicoterapeutas devem estar alertas para sinais de desconfiança inicial, resistência ou questionamentos sobre sua capacidade de compreensão, interpretando esses comportamentos como possíveis manifestações da dissonância, em vez de classificá-los como resistência patológica. O manejo adequado inclui o reconhecimento das limitações para compreender experiências que não vivenciaram, a expressão de disposição genuína para aprender e a validação das preocupações do cliente quanto à competência cultural. Essa abordagem transparente pode transformar essa dificuldade inicial em uma oportunidade para a construção de confiança e de uma aliança terapêutica mais sólida (Rogers, 2021).

Competência Interseccional Psicoterapêutica (CIP)

A Competência Interseccional Psicoterapêutica (CIP) refere-se à capacidade das(os) psicoterapeutas para lidar eficazmente com as intersecções de raça e sexualidade no atendimento a homens negros gays. Ela reúne habilidades, conhecimentos e atitudes que permitem à(ao) psicoterapeuta atuar de maneira sensível e apropriada diante das complexidades identitárias dessa clientela, independentemente de suas próprias identidades sociais. Esse conceito reconhece que, mesmo quando há divergências identitárias significativas, a aplicação de uma abordagem interseccional pode promover uma relação psicoterapêutica positiva e produtiva.

Síntese do Achado

A pesquisa revelou que, para os participantes do estudo, as(os) psicoterapeutas com identidades divergentes das suas conseguiram estabelecer uma relação psicoterapêutica positiva quando demonstraram sensibilidade às suas demandas, abstiveram-se de julgamentos, abordaram raça e sexualidade de forma interseccional e culturalmente apropriada e contextualizaram suas próprias identidades no processo psicoterapêutico.

Diálogo com a Literatura

A literatura indica que a interferência das diferenças identitárias pode ser atenuada pela capacidade da(o) psicóloga(o) de não julgar, aprofundar a compreensão das questões raciais e sexuais e contextualizar suas próprias identidades no processo psicoterapêutico (Tavares & Kuratani, 2019). No atendimento psicológico a pessoas negras, a ausência de julgamento por parte da(o) psicóloga(o) é crucial para que esses clientes consigam estabelecer vínculo com o profissional e se sintam acolhidos na terapia (Zamignani et al., 2016).

Estudos com populações racial e sexualmente minorizadas indicam que psicólogas(os) devem conhecer as questões raciais e sexuais e abordá-las proativamente nas sessões de psicoterapia (Chang & Berk, 2009; Gouveia & Zanello, 2019; Sue et al., 2012). PettyJohn et al. (2020) ressaltam que diferenças entre as identidades das(os) psicoterapeutas e as dos clientes podem representar desigualdades. Por isso, recomenda-se que as(os) profissionais abordem suas próprias posições identitárias desde o início, a fim de minimizar o desconforto dos clientes.

Implicações Clínicas

A Competência Interseccional Psicoterapêutica (CIP) pode ser desenvolvida e aplicada por meio de estratégias práticas que transformem potenciais barreiras identitárias em possibilidades de compreensão mútua. Para isso, psicoterapeutas podem recorrer à contextualização explícita de suas identidades desde as sessões iniciais, declarando como suas posições sociais podem influenciar a dinâmica terapêutica e demonstrando disposição genuína para aprender sobre as experiências interseccionais do cliente.

Insensibilidade Interseccional Psicoterapêutica (IIP)

A Insensibilidade Interseccional Psicoterapêutica (IIP) refere-se à falha das(os) psicoterapeutas em reconhecer, compreender e abordar adequadamente as complexas intersecções entre raça e sexualidade no atendimento a homens negros gays. Esse fenômeno se manifesta por meio da omissão ou da negligência em relação às experiências singulares e aos desafios específicos enfrentados por essa clientela, resultando em microagressões e na perpetuação de dinâmicas opressivas na terapia. A IIP ocorre quando as(os) psicoterapeutas não conseguem criar um ambiente acolhedor e sensível às questões raciais e sexuais, o que compromete o engajamento do cliente e a eficácia do tratamento.

Nesse sentido, a Insensibilidade Interseccional Psicoterapêutica manifesta-se por meio da minimização ou do desconhecimento das experiências de discriminação racial e homofobia, de uma abordagem baseada em suposições heteronormativas e racialmente insensíveis e da incapacidade de reconhecer o impacto das intersecções identitárias na saúde mental do cliente.

Síntese do Achado

Os participantes da pesquisa relataram ter vivenciado microagressões durante o processo psicoterapêutico, manifestadas por meio da relativização de suas demandas específicas e da negligência, por parte das(os) psicólogas(os), diante das questões raciais e sexuais apresentadas pelos clientes. Essas experiências geraram desmotivação progressiva para discutir suas vivências e seus aspectos identitários interseccionais e resultaram, ao longo do tempo, no abandono da psicoterapia.

Diálogo com a Literatura

Os achados desta pesquisa convergem com estudos que demonstram que pessoas negras LGBTQIAPN+ tendem a estar mais insatisfeitas com a psicoterapia do que outros grupos, recebem diagnósticos frequentemente incompatíveis com suas realidades e apresentam uma taxa mais elevada de interrupção prematura do tratamento (Hays, 2008; Pereira, 2014; Spengler et al., 2016; Sue et al., 2012). Essas evidências sustentam a compreensão de que a insensibilidade psicoterapêutica não constitui um fenômeno isolado, mas um padrão sistemático que afeta negativamente o engajamento e os desfechos psicoterapêuticos de populações interseccionalmente marginalizadas (Vezzosi et al., 2019).

Hays (2008) enfatiza especificamente que a omissão ou a minimização das questões identitárias pode levar os clientes a se sentirem desvalorizados e incompreendidos, o que ­favorece a desmotivação e o abandono da psicoterapia. Essa perspectiva articula-se com os relatos dos participantes e demonstra que a negligência diante das questões interseccionais deixa de promover o crescimento terapêutico e reproduz ativamente situações de invalidação e marginalização já experimentadas em outros contextos sociais. A literatura indica que essa insensibilidade reafirma a opressão vivenciada fora do ambiente clínico, transformando a psicoterapia em uma extensão das dinâmicas sociais discriminatórias, em vez de constituir um ambiente de acolhimento e transformação (Chang & Berk, 2009).

Implicações Clínicas

A identificação e a prevenção da Insensibilidade Interseccional Psicoterapêutica oferecem aos profissionais estratégias práticas para aprimorar a qualidade do atendimento a homens negros gays. Psicoterapeutas podem utilizar esse fator crítico como ferramenta de autoavaliação contínua, monitorando suas próprias práticas para reconhecer sinais de insensibilidade interseccional, como a tendência a minimizar experiências de discriminação, a evitação de discussões sobre raça e sexualidade ou interpretações que desconsiderem o contexto sociocultural das vivências do cliente.

Por exemplo, quando um cliente relata ter sido rejeitado em uma entrevista de emprego, uma resposta característica da IIP consistiria em concentrar-se exclusivamente em aspectos individuais (“vamos trabalhar sua ansiedade nas sessões”), sem explorar a possibilidade de discriminação racial ou homofóbica. Em contraste, a sensibilidade interseccional levaria a(o) terapeuta a investigar: “Você percebeu algum sinal de que sua condição de homem negro gay possa ter influenciado essa situação?” Essa abordagem valida a realidade do cliente e explora o impacto psicológico da discriminação interseccional.

Conclusão

A presente pesquisa investigou a experiência de homens negros gays na psicoterapia, considerando as interseccionalidades racial e sexual, com o objetivo de identificar os fatores críticos que afetam esse atendimento. Entendem-se por fatores críticos os elementos associados tanto ao sucesso quanto aos prejuízos e à ineficácia do processo psicoterapêutico. Os resultados indicam quatro fatores críticos no atendimento psicoterapêutico desse público: Perspectiva Interseccional Dinâmica (PID); Dissonância Identitária Psicoterapêutica (DIP); Competência Interseccional Psicoterapêutica (CIP); e Insensibilidade Interseccional Psicoterapêutica (IIP).

A identificação desses fatores reitera a importância da interseccionalidade no atendimento a pessoas afetadas por múltiplos sistemas de opressão e representa uma contribuição para o campo da psicologia clínica. O reconhecimento de aspectos sensíveis às necessidades dos homens negros gays pode aprimorar a atuação das(os) psicólogas(os) com essa clientela, ao destacar aspectos que merecem atenção cuidadosa e devem ser integrados à prática psicoterapêutica. Além disso, a compreensão desses fatores pode enriquecer a formação em Psicologia ao apontar elementos essenciais para a aprendizagem da abordagem interseccional na psicoterapia.

Os resultados também sugerem que a falta de uma abordagem crítica e reflexiva sobre essas questões pode ter consequências prejudiciais para a saúde mental das pessoas que buscam psicoterapia, perpetuando ciclos de opressão presentes fora do ambiente clínico. Reconhece-se que os achados desta pesquisa, embora relevantes, apresentam limitações relacionadas ao tamanho reduzido da amostra (n = 4) e ao escopo regional restrito a Rondônia. Por isso, são necessários estudos futuros com amostras maiores e em diferentes contextos geográficos para ampliar a compreensão desses fenômenos. É crucial que as futuras investigações sejam conduzidas com salvaguardas éticas para evitar a revitimização e a objetificação, no processo de pesquisa, de grupos sociais já expostos a múltiplas violações por sistemas opressivos. Esses estudos devem oferecer benefícios imediatos aos participantes, como devolutivas individualizadas dos achados, encaminhamentos, quando necessários, a profissionais culturalmente competentes e contribuições diretas para o aprimoramento da formação profissional em competência multicultural na região estudada.

Finalmente, este estudo ressalta a necessidade de investigar outros perfis populacionais atravessados por interseccionalidades, a fim de identificar fatores críticos específicos. Não se pode afirmar que os achados desta pesquisa se apliquem igualmente a outras configurações interseccionais, pois diferentes articulações entre sistemas opressivos podem afetar profundamente as experiências de vida das pessoas por eles marginalizadas.

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Sobre os autores:

Leandro Aparecido Fonseca Missiatto [autor para contato]: Doutor em Psicologia Clínica pela Universidade do Valeo do Rio dos Sinos (UNISINOS). Mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR). Graduado em Psicologia pela Faculdade de Ciências Biomédicas de Cacoal (Facimed). Analista Processual em Psicologia no Tribunal de Justiça de Rondônia (TJRO) e Docente na Pós-Graduação em Direito para Carreira da Magistratura na Escola da Magistratura do Estado de Rondônia (EMERON). Pesquisador em raça, diversidade, gênero, colonialidade/decolonialidade, Direitos da Natureza e Amazonidades, e autor do livro “Colonialidade Normativa”. E-mail: leandro.aparecido@tjro.jus.br, Orcid: https://orcid.org/0000-0002-6532-735X

Janine Kieling Monteiro: Doutora, mestra e graduada em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq. Professora Titular nos cursos de Psicologia, Direito e Administração, e nos Programas de Pós-Graduação em Psicologia e Gestão e Negócios na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). Coordena o LABORClínica. Participa do Grupo de Pesquisa em Liderança e Gestão de Pessoas na Unisinos e atua como consultora de empresas em Gestão de Pessoas. E-mail: janinekm@unisinos.br, Orcid: https://orcid.org/0000-0003-2577-1322

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Editor-chefe: Rodrigo Lopes Miranda

Editor de seção responsável pelo artigo: Patrícia Martins de Freitas

Avaliadores: Hellen Cristina de Oliveira Alves e Iveth Paulina Salcido Amado

Recebido em: 01/10/2024

Última revisão: 10/11/2025

Aceite final: 10/11/2025

Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.


  1. 1 A sigla LGBTQIAPN+ é a que adotamos neste estudo por ser mais abrangente e designar diversas orientações sexuais e identidades de gênero, representando grupos específicos, como lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, queer, intersexuais, assexuais, pansexuais, pessoas não binárias e outras identidades. Contudo, podem aparecer no texto siglas como LGBT e LGBT+, entre outras. Nesses casos, serão usadas conforme aparecem nas pesquisas e nos estudos aos quais se referem.

  2. 2 O “mito da democracia racial” é um fenômeno que eufemizou as violências raciais na sociedade brasileira. Esse mito “era uma distorção do padrão das relações raciais no Brasil, construído ideologicamente por uma elite considerada branca, intencional ou involuntariamente, para maquiar a opressiva realidade de desigualdades entre negros e brancos” (Domingues, 2005, p. 118).

doi: http://dx.doi.org/10.20435/pssa.v18i1.3082

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